Há cerca de um ano, num
blog de Mangualde, comentando um post sobre a Feira de Santos disse o
seguinte:
Passei hoje por Mangualde. Só vi placas a indicar febras. Nem Feira dos Santos, nem Mostra de Artesanato tiveram direito a placas. Será que já mudaram o nome à Feira? Eu sempre conheci como Feira de Santos ou da Marrã!
Logo três pessoas disseram que sempre a conheceram por Feira das Febras,
uma havia pelo menos 46 anos,
outra havia mais de 50 anos, e
outra a tempo indeterminado.
Um deles, com o seu humor característico, disse:
Deve ser coisa ancestral, quiçá neolítica, sei lá. "Marrã" é que nunca ouvi.Outro deles questionou a minha origem mangualdense e disse:
Meu amigo, feira dos santos ou das febras ou feveras, sim, o resto mais uma demagogia do contra. Deve consultar o ortopedista.
A este último respondi o
seguinte:
Sou de Penalva do Castelo, de uma aldeia para cá do Ludares, a Ribeira, freguesia de Real. Os meus pais sempre me falaram desta feira como sendo dos Santos ou da Marrã, que era a carne que se ia comer. Ainda ontém confirmei isto com eles. E o curioso é que esta semana esteve lá em Casa, em Lisboa, um senhor a compor um electrodoméstico, que é de Cativelos, e lhes disse que ia comer a marrã a Mangualde este fim de semana!
Na altura prometi ao autor do Blog que caso encontrasse algo escrito lhe enviava. Já o fiz, mas aproveito para colocar agora aqui uma foto da notícia do Notícias da Beira sobre a Feira dos Santos de 1963 (a qualidade não é muito boa, mas consegue-se ler).

No Notícias da Beira encontramos várias referências à marrã nas notícias referentes à Feira de Santos:
Em todo o caso fizeram-se muitas e variadas transacções, especialmente da tradicional "marrã", pois foram abatidas algumas centenas de cevados. (NB, 441, 10-11-1947).
O facto imprimiu ao ambiente um ar de grande entusiasmo e movimento em todos os sectores do mercado, tendo-se realizado importantes transacções, principalmente de marrã, sendo abatidos mais de 500 suínos! (NB, 801, 10-11-1962).
Destaca-se ainda a venda de carne de suíno (marrã) pois além do consumo que nesse dia se repista nos restaurantes e nas pitoresas bancas... (NB, 824, 1963).
Apenas na década de 70, principalmente no pós 25 de Abril, deixa de haver referências à marrã e passam a ser referidas as febras.
Para quem não saiba o termo marrã designa a bácora que já deixou de mamar ou simplesmente a sua carne. O termo é bastante antigo e aparece no Foral manuelino de Tavares (10-02-1514). O bácoro ou a sua carne era chamado de gorazil (termo que também surge no Fora de Tavares). Com o tempo o termo gorazil caiu em desuso e o termo marrã passou a designar genericamente a carne fresca de porco ou porca.
Em
Mogadouro, por exemplo, a Feira anual chama-se Feira dos Gorazes, mas as pessoas dizem que comem a marrã!